Como definir os objetivos de uma investigação científica
Sapiensphera
Uma investigação científica precisa de direção. É possível escolher um tema relevante, identificar uma lacuna na literatura e formular uma boa pergunta de partida e, mesmo assim, perder-se pelo caminho se não estiver claro o que o trabalho pretende alcançar. É essa a função dos objetivos: estabelecer o que o investigador quer atingir com o estudo e orientar todas as etapas seguintes — a metodologia, a recolha de dados, a análise dos resultados e as conclusões.
O que são objetivos de investigação científica
Os objetivos são afirmações que indicam aquilo que o investigador pretende alcançar, analisar, compreender, explicar, avaliar, comparar ou verificar através do estudo. Devem estar diretamente ligados ao problema científico e à pergunta de investigação.
Tome-se o tema “Inteligência Artificial no ensino superior”. Sozinho, é demasiado amplo para indicar o que será investigado. Dele pode nascer um problema: “De que forma a utilização de ferramentas de Inteligência Artificial generativa influencia os métodos de avaliação no ensino superior?” E desse problema, um objetivo: “Analisar a influência da utilização de ferramentas de Inteligência Artificial generativa nos métodos de avaliação do ensino superior.” Tema, problema e objetivo formam assim uma sequência lógica.
Tema, problema e objetivo não são a mesma coisa
O tema indica a área geral a estudar — no exemplo, a Inteligência Artificial no ensino superior. O problema científico apresenta a questão que precisa de resposta — de que forma o uso de IA generativa influencia os métodos de avaliação. O objetivo indica o que o investigador vai fazer para responder a essa questão — analisar essa influência.
Em resumo: o tema diz sobre o que investigar; o problema diz o que precisa de ser investigado; o objetivo diz o que a investigação vai fazer para responder ao problema.
Objetivo geral
O objetivo geral é a finalidade principal da investigação, a formulação mais abrangente do que se pretende alcançar, e deve estar diretamente relacionado com o problema científico. Para o problema apresentado acima, o objetivo geral poderia ser: “Analisar os efeitos da utilização de ferramentas de Inteligência Artificial generativa nos métodos de avaliação do ensino superior.” É ele que fornece a direção principal do trabalho.
Objetivos específicos
Os objetivos específicos desenvolvem o objetivo geral em dimensões, etapas ou resultados concretos que contribuem para a finalidade principal. Para o objetivo geral acima, poderiam definir-se:
1. Identificar as principais ferramentas de IA generativa utilizadas pelos estudantes.
2. Analisar a perceção dos docentes sobre a utilização dessas ferramentas.
3. Avaliar os efeitos da utilização da IA generativa sobre determinados métodos de avaliação.
4. Identificar os principais desafios relacionados com a integridade académica.
Os objetivos específicos tornam a investigação mais operacional: ajudam a determinar o que deve ser observado, recolhido e analisado.
Quantos objetivos específicos deve ter uma investigação
Não há um número obrigatório. Uma investigação pode ter três, quatro, cinco ou mais objetivos específicos, consoante a complexidade do problema. O que importa é a coerência: objetivos a mais tornam a investigação demasiado ampla; objetivos a menos deixam dimensões importantes do problema sem resposta. Vale a pena perguntar se é possível alcançar todos os objetivos definidos dentro do tempo, dos recursos e da metodologia disponíveis — se a resposta for não, a investigação provavelmente precisa de ser mais delimitada.
Como escolher os verbos dos objetivos
A escolha do verbo é uma das partes mais importantes da formulação. Alguns verbos úteis: analisar, avaliar, comparar, identificar, investigar, examinar, descrever, compreender, verificar, determinar, caracterizar, interpretar, relacionar, explicar.
O verbo deve corresponder à ação científica que será realizada. Para descobrir fatores presentes num fenómeno, usa-se identificar; para estabelecer diferenças entre grupos, comparar; para medir ou apreciar um efeito, avaliar; para compreender relações entre fenómenos, analisar a relação entre.
Objetivos vagos a evitar
Algumas formulações parecem objetivos mas são demasiado imprecisas: “estudar a Inteligência Artificial” é amplo de mais; “falar sobre os efeitos da IA” não define uma ação de investigação; “conhecer melhor o problema” é vago demais para orientar um estudo.
Formulações mais adequadas seriam: “analisar os efeitos da utilização de ferramentas de IA generativa no processo de avaliação dos estudantes”, ou “avaliar a perceção dos docentes do ensino superior sobre a utilização de ferramentas de IA generativa na avaliação académica”. Este tipo de formulação permite perceber o que será estudado, em relação a quê e em que população.
Objetivos não são atividades metodológicas
Este é um erro frequente. “Aplicar questionários aos estudantes” é uma atividade de investigação, não um objetivo científico. O objetivo correspondente seria “avaliar a perceção dos estudantes sobre a utilização da Inteligência Artificial generativa no processo de aprendizagem” — e os questionários seriam o instrumento para lá chegar. O objetivo é aquilo que se quer descobrir, analisar ou compreender; o método é como se vão obter os dados necessários para alcançá-lo.
Objetivos alcançáveis
Um bom objetivo deve ser compatível com o tempo disponível, os recursos existentes, a dimensão da amostra, o acesso aos dados, a metodologia escolhida, a formação do investigador e o âmbito do trabalho. Uma dissertação de mestrado que pretenda “analisar os efeitos da Inteligência Artificial em todo o sistema educativo africano” está, à partida, mal delimitada. Uma versão mais operacionalizável seria: “analisar a perceção dos docentes do ensino superior de Luanda sobre a utilização de ferramentas de Inteligência Artificial generativa na avaliação académica.”
Objetivos relacionados entre si
Os objetivos específicos não devem parecer uma coleção aleatória de tarefas: devem contribuir para o objetivo geral. A relação segue esta cadeia: problema científico, objetivo geral, objetivos específicos, metodologia, resultados, conclusões. Se um objetivo específico não contribui para responder ao problema, vale a pena questionar se pertence à investigação.
Como verificar se os objetivos estão bem formulados
Cinco perguntas ajudam a testar a formulação: está claro o que se pretende investigar? O objetivo responde ao problema científico? O objetivo pode ser alcançado com os recursos disponíveis? É possível verificar, no final, se o objetivo foi alcançado? A metodologia escolhida permite alcançar o objetivo? A metodologia nunca deve ser escolhida antes de se compreender o que se pretende investigar.
Objetivos e metodologia
Se o objetivo é “comparar o desempenho académico de estudantes que utilizam determinada metodologia com o de estudantes que não a utilizam”, será preciso recolher dados que permitam essa comparação, tipicamente por via quantitativa. Se o objetivo é “compreender a perceção dos estudantes sobre determinada metodologia de ensino”, uma abordagem qualitativa, com entrevistas, tende a ser mais adequada. Os objetivos determinam, portanto, que tipo de dados são necessários e como podem ser obtidos.
Objetivos e resultados
Os resultados devem responder diretamente aos objetivos estabelecidos. Se o objetivo específico foi identificar os principais fatores associados ao abandono escolar, os resultados devem apresentar esses fatores. Se foi comparar dois grupos, os resultados devem apresentar essa comparação. Se foi avaliar uma relação, os resultados devem trazer os elementos necessários para essa avaliação. Os objetivos funcionam, nesse sentido, como o mapa da investigação.
Uma técnica simples para formular objetivos
Uma estrutura útil combina verbo de ação, objeto de investigação, contexto ou população e, quando aplicável, dimensão temporal ou espacial. Por exemplo: analisar (verbo) os efeitos da IA generativa (objeto) na avaliação académica (contexto) no ensino superior angolano (dimensão espacial). O resultado: “Analisar os efeitos da utilização de ferramentas de Inteligência Artificial generativa na avaliação académica no ensino superior angolano.” Nem todos os objetivos precisam de incluir todos estes elementos, mas a estrutura ajuda a ganhar precisão.
Exemplos por área
Direito
Objetivo geral: analisar os desafios jurídicos decorrentes da utilização da Inteligência Artificial na proteção de dados pessoais em Angola.
Objetivos específicos: identificar os principais riscos associados ao tratamento automatizado de dados pessoais; analisar o quadro jurídico aplicável; comparar a legislação angolana com determinados regimes jurídicos internacionais; propor medidas de aperfeiçoamento do quadro regulatório.
Educação
Objetivo geral: avaliar o impacto da utilização de tecnologias digitais no processo de aprendizagem dos estudantes do ensino superior.
Objetivos específicos: identificar as principais tecnologias utilizadas; analisar a perceção dos estudantes; avaliar as principais vantagens e limitações; identificar fatores que condicionam a utilização dessas tecnologias.
Economia
Objetivo geral: analisar os efeitos da inflação sobre o poder de compra das famílias.
Objetivos específicos: identificar a evolução dos principais indicadores; analisar a relação entre inflação e rendimento disponível; comparar os efeitos entre diferentes grupos de rendimento; avaliar as principais consequências económicas.
O teste final
Antes de iniciar a recolha de dados, vale a pena reler os objetivos e perguntar: se eu alcançar todos estes objetivos, terei respondido ao meu problema científico? Se a resposta for sim, há boa probabilidade de coerência entre o problema e os objetivos. Se for não, é necessário rever a formulação.
Conclusão
Definir os objetivos de uma investigação não é uma formalidade académica — é uma das etapas que determinam o caminho que a investigação vai seguir. Um bom objetivo delimita, orienta e torna possível avaliar o trabalho realizado. A relação fundamental resume-se assim: problema claro, objetivo geral coerente, objetivos específicos precisos, metodologia adequada, resultados relevantes.
Uma investigação científica não começa apenas quando o investigador recolhe dados. Começa antes: quando consegue dizer, com precisão, aquilo que pretende descobrir.
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